O cachorro mártir

Ontem me ocorreu contar essa história, quando sobrou tempo em minha fala final, no seminário sobre os 100 Anos da Revolução Russa. Instado pela Rosaly, que insistiu que a história deveria escapar da oralidade para tornar-se crônica, reconto-a aqui.

Considerem-na minha singela homenagem ao centenário da revolução de 1917. Eis o caso:

Meu pai, em seus anos de juventude, idealista e subjetivista como era, apaixonado pela literatura russa e, por via dela, socialista de convicção, embora fundamentalmente de convicção, possuiu um cachorro – ao que me consta um vira-latas preto e que transfigurava a esperteza no semblante – que recolheu da rua e que, em sua curta vida, foi-lhe um companheiro fiel.

Deu-lhe o nome de Iskra. Sim, o nome do jornal mítico fundado por Lênin e que foi o baluarte da revolução russa de 17. Iskra significa centelha, em russo. O nome do jornal foi tirado de um verso do poeta Alexandre Odoevsk que diz que “de uma centelha se acenderá a chama” – a chama da revolução, evidentemente.

Iskra mostrou ser digno do nome que lhe fora dado. O ato final de sua vida, ocorreu quando mordeu um cabo elétrico, acendendo uma centelha que rapidamente provocou um curto circuito que raptou a energia de toda a vizinhança – o cruzamento da Genralíssimo com a Antônio Barreto, onde ficava a casa de meu avô –provocando um início de incêndio, felizmente controlado pela prestimosa ajuda da vizinhança e que atraiu uma massa anódina de curiosos para saber do que se tratava.

Em Belém, talvez, a revolução, se fosse, não atraísse a tantos.

Sim, o Iskra pereceu, mas entrou para a história. Espírito aberto e de ímpeto revolucionário, franco e invulgar no seu heroísmo, decidiu morder aquele cabo elétrico não em qualquer hora, mas, justamente, a poucos instantes de se receber para o jantar, na casa de meu avô, o senhor governador do estado, que naquele tempo era o dr. Aurélio do Carmo, bem como outros baratistas ilustres (no seminário, por equívoco, mencionei que era o próprio Magalhães Barata, mas fui checar a história e, de fato, o convidado era Aurélio do Carmo).

O que, por sinal, deve explicar melhor o afluxo da referida e anódina massa humana, atraída menos pelo incêndio e menos pela presença do ilustre personagem de que pela curiosidade de ver como se faria para receber, em pleno incêndio, e sem eletricidade, para o jantar, o dito ilustre personagem.

Meu avô era baratista, tal como o governador, mas essa posição política não era compartilhada nem por meu pai, idealista rousseauista e bukharinista, e nem, ao que se percebe, por seu cachoro – o abnegado Iskra. De fato, meu pai só se referia a Magalhães Barata como ditador, traidor do povo e, não raramente, como El Baratón. Por extensão, seus partidários eram hostilizados pelos mesmos motivos e, por meu pai, apelidados los cucarachitos – para constrangimento de meu avô perante seus amigos.

Anos mais tarde minha avó ainda se referia ao animal como “aquele cachorro ridículo” e meu avô o mencionava, sem cerimônias, como “aquele cachorro filho da puta”. A saia justa e a delicada solução de meu avô foi levar sua comitiva para jantar no restaurante Avenida, alí mesmo na Generalíssimo, embora não onde hoje se localiza, e sim do outro lado da rua. O atentado do Iskra poupara aquela parte da rua da falta de luz.

Meu pai, porem, não participou desse jantar. Ficou velando a alma do Iskra, comovido, apoiado pelos colegas da vizinhança. O velório do animal transcorreu à luz de velas. E teve discurso, seguido por uma cantoria meio capenga da Internacional – ninguém lembrava a letra completa da canção. O grupo saudou o Iskra por seu ato de abnegação revolucionária, compreendendo que mordera o cabo elétrico não pela curiosidade malsã dos cães realmente inteligentes, mas pela deliberada compreensão de ser seu dever aniquilar a refeição burguesa do governador baratista.

Houve uma salva de palmas em honra ao Iskra e ele entrou na crônica dos círculos de amizade de meu pai como o primero cachorro revolucionário, sabotador e terrorista da história amazônica. E talvez de toda a história, quem sabe… E assim se foi Iskra, o cachorro mártir.

Bom, para concluir a história, cabe contar que Iskra foi substituído em seu posto. Rapidamente meu pai trouxe da rua um segundo vira-latas e iniciu seu treinamento revolucionário – o qual consistia, basicamente, em admoestar o animal com a leitura de longos trechos de Dostoievsky.

O novo cachorro deveria chamar-se… Pravda… mas minha avó opôs-se radicalmente ao nome, exigindo que o novo animal tivesse um nome normal.

E, mesmo contra os veementes protestos de meu pai, batizou-o Rex.

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A estátua

Entre as sombras da praça, que os ventos esgalham,
Uma estátua bronze me conduz pela mão.
Hoje é domingo, cinemas lotados, praças cheias, derrisão.
Os pássaros espiam os humanos, sem qualquer comoção.
Percebendo-o, a estátua me beija.
Seu segredo é eterno, ninguém o percebe,
Salvo esse menino cego, que ri,
e nos aponta com a mão.

Bom, será que isto traduz Prévert: …

Entre les rangées d’arbres de l’avenue des Gobelins 

Une statue de marbre me conduit par la main 

Aujourd’hui c’est dimanche les cinémas sont pleins 

Les oiseaux dans les branches regardent les humains 

Et la statue m’embrasse mais personne ne nous voit 

Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.

…???

Tico-Tico

Para a Maria Fernanda,

Há alguns dias saímos para jantar, Marina, Pedro, eu e a querida tia Cristina, de passagem por Belém. Perguntamos de Maria Fernanda e do Miguel, priminhos, seus netos. Pedimos histórias. Da Fernanda, ela nos contou que, agora, vive pedindo para contar,

“Histórias de quando tu eras criança, vó”, e observou, “igual a ti, Fábio, a mesma frase, tu vivias pedindo para a gente contar histórias de quando éramos criança!”.

Verdade. E como uma coisa leva a outra, lembrei de minha avó Maria Vera, mãe de meu pai, sogra da tia Cristina, bisa da Nandinha, do Miguel, do Pedro e de outros quatro seres que hoje aprontam no mundo.

E lembrei da história do Tico-Tico.

Que ela me contou porque já não tinha nada para contar. Porque o chato que eu era queria mais e mais histórias de quando ela era criança e, tendo já esgotado e repertório, punha fora fatos corriqueiros e banais, que não tinham porquê nem nem tinham final.

Foi assim que soube do Tico-Tico.

Era uma meia história para ela, mas para mim, durante muitos anos, foi um caso angustiante e transcendental.

Foi o seguinte: me contou a minha avó, que um dos dias mais felizes da sua infância transcorreu quando viu seu nome publicado na revista Tico-Tico. A revista Tico-Tico era uma publicação voltada para o público infantil, no tempo em que era menina. Tinha distribuição nacional e, embora feita no Rio de Janeiro, chegava corretamente, ainda que com imenso atraso, aos assinantes de Belém.

Parece que era uma bobagem, da qual ela nem tinha muita certeza e, ademais, em sua compreensão, podia mesmo ser uma imaginação. Será que seu nome saíra na tal revista? E por que? Nem ela mais sabia.

Seu pai, Felipe Uchôa Horacio e Silva, fizera uma assinatura dessa revista. Mais tarde, ele faltaria, mas, na infância da filhas foi extremamente pródigo na compra de livros, revistas e jornais. Por sinal, felizmente que há pais que, embora faltem, de muitas formas, são efetivamente pródigos em algo que, no futuro, será essencial. Em seu caso era essa idéia: dinheiro gasto com livros e revistas nunca é dinheiro perdido, mas sim multiplicado.

E assim, na infância da minha avó, lá pelos anos 1920, se lia o Tico-Tico. O problema é que já não se sabia mais se era verdade ou imaginação. E, para completar, essa lembrança era apenas dela. As irmãs, todas mais velhas, não se lembravam de nada. Durante toda a sua vida minha avó desejou saber se seu nome tinha, de fato saído na revista Tico-Tico e nada. Tivesse sido verdade, para todas essas irmães a coisa era indiferente, e minha avó era a mais nova daquela família de nove irmãs, embora nem todas sobreviventes. Nenhuma delas se lembrava do fato. Nenhuma delas pôde, jamais, ajudar com alguma informação que viesse a completar a sua pouca lembrança do evento.

E, quando me contou o caso, o que sobrou era apenas a impressão. A impressão de que isso, algum dia, acontecera e quase a certeza de que não acontecera. Recordo muito bem de minha avó narrando suas impressões de mundo. Hoje vejo como era uma menina. Lembro como se ria de si mesma e de seus espantos. Como se ria das suas imaginações – que, circunspectamente, pois era preciso dar respeito aos netos – dividia comigo.

O problema é que saber se fôra ou não fôra se tornou para mim um problema maior. Durante anos fiquei incomodado com essa dúvida e me pus a madizer suas irmãs, por sua incapacidade de poder responder a uma questão tão banal, mas igualmente tão fundamental, tão importante para a coitadinha da minha avó Verinha. Em vão, procurei pistas no discurso de minha avó e atuei como exegeta dos seus discursos, como hermeneuta das suas palavras, tentando perceber se era ou se não era, se a coisa fôra verdade ou se fôra imaginação.

Pois bem…

Ouvindo a história da Maria Fernanda e me lembrando dessa memória que não era minha, decidi, em homenagem à minha avó, ir atrás da coisa. Procurei, revirei papeis, arquivos, sites, e documentos. Escaveei e, enfim… encontrei as provas.

Minha avó está morta há 35 anos, mas espero que não seja demasiado tarde. Pois encontrei, afinal, depois de anos procurando, a revista Tico-Tico na qual seu nome foi citado. Não, não foi uma imaginação. E aconteceu em 1925, quando ela tinha 7 anos de idade. Tratava-se de uma advinha, um passe-à-part, uma bobagem que, para ela, no entanto, aos sete anos de idade, teve o peso de algo imenso. Tratava-se de um concurso, uma advinha, do qual ela e suas irmãs participaram. Havendo resolvido o enigma, a Tico-Tico, de fato, publicou o seu nome. O seu e o das suas irmãs – essas ingratas, que nem se dignaram a lembrar do evento… O fato era banal, mas, para ela, foi grandioso. Coisas de menina. Coisas de quando era criança.

Gostaria que minha avó pudesse me ler. E deixo aqui, todo meu reconhecimento e minhas homenagens àquilo que sentiu. O tempo não a resgata, mas a devém. E isto acontece quando, há dias, fizeram-se cem anos de seu nascimento, em 1917, e também 35 anos de sua morte, em 1982.

Reproduzo a revista Tico-Tico, com seu nome, vejam, lá na página 14, deixei marcado.

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Nunca é tarde…

Nunca é tarde para recomeçar.

E nem para recuperar o tempo (que não é perdido, mas sempre ganho).

Declaro reaberto este blog, para o uso de parentes e amigos.

Para quem não sabe, A Diversa-Vez é o nome do jornal familiar que fazíamos, Marina, Gabriela, Pedro e eu quando morávamos em Paris, para dar notícias das nossas aventuras por lá à família. Depois, quando moramos em Montreal, virou blog.

Agora, continuando como blog, vamos reforçar as coisas: laços de afeto, amizades, novidades, história, memória, etc.

E quem me motiva é a Maria Fernanda (vejam o artigo seguinte). Priminha, você, sempre muito lindinha, dá vontade de contar história.

Diários de Montreal 26: Scrat days

A -25 graus, assim estou me sentindo hoje: hiperativo como o Scrat, mas congelado; querendo sair para trabalhar (minha noz), mas congelado; ansioso para carpar meu dia, mas congelado; obcecado para chegar à Universidade, mas congelado; esbugalhado para abrir aquele livro, mas congelado; “squirrel” + “rat” (como Scrat, de sua espécie), mas congelado.

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