Diários de Montreal 20: Eleições em Montréal

Ontem, domingo, ocorreram as eleições para a prefeitura de Montreal – e de todo o Québec. Doze candidatos. Os quatro principais eram:

–       Denis Coderre, 50 anos e 16 de experiência legislativa, alguns anos também como ministros dos Esportes e como ministro da Francofonia, cientista político de formação, o mais conhecido e o mais “macaco-velho”;

–       Marcel Côtê, 70 anos, economista, novo na política, candidato dos ricos e da maioria dos anglófonos;

–       Richard Bergeron, urbanista e arquiteto, candidato pela terceira vez à prefeitura, pouca experiência na política, autor do mais arrojado dos projetos, repleto de ideias ambiciosas e interessantes;

–       Mélanie Joly, 34 anos, advogada, mestre em direito por Oxford, atua também no campo do marketing e da publicidade, neófita em política.

Ganhou Coderre, o “macaco velho”, o único dentre os quatro com experiência real na política e, sem sombra de dúvidas, o que tinha mais recall, o mais lembrado de todos.

Mas sua vitória não foi larga. Teve 31,6% dos votos, contra 26,5% de Joly, a advogada bonitinha, 26% de Bergeron, o urbanista cheio de ideias e 12,8% de Côté, o velhinho sensação entre os ricos.

A taxa de participação eleitoral foi de 38,8% – o voto aqui não é obrigatório – o que corresponde à média verificada em todas as eleições.

Como disse, a vitória de Coderre não foi larga. Além de prefeito, se elegeu o Conselho Municipal, que equivale à nossa Câmara de Vereadores e, ainda, os sub-prefeitos e os Conselhos dos distritos, ou arrondissements, que são 19.

No Conselho Municipal, Coderre fez 24 cadeiras. 24 de um total de 64 – sendo que o prefeito, aqui, também participa do Conselho. 25, então.

Joly, a advogada bonitinha fez 3 cadeiras. Côté, o velhinho sensação dos ricos, fez 5 cadeiras e Bergeron, o urbanista cheio de ideias, fez 17 cadeiras.

Há ainda 8 conselheiros independentes – uma coisa muito boa do sistema eleitoral canadense é que ele permite que cidadãos sem afiliação partidária possam participar das eleições.

Para ter a maioria do Conselho, o prefeito precisa ter 33 cadeiras. O que significa que Coderre tem que governar em coalizão e encontrar apoio em algum dos adversários.

***

Coderre foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1997, após 3 candidaturas fracassadas, pelo Partido Liberal. Logo em 1999 foi feito secretário de estado para o Esporte Amador. Em 2002 foi feito ministro da Cidadania e da Imigração e, em 2003, ministro para a Francofonia. Numa engueulade (digamos, uma briga feia, melhor maneira que encontro para traduzir essa palavra francesa que, literalmente, seria “enfocinhamento”) com seu partido, ele renunciou, em 2009, ao seu mandato.

É um liberal. O Partido Liberal é uma das duas grandes forças políticas do país. A outra, é o Partido Conservador, do atual primeiro-ministro, Steven Harper.

Mas atenção: o sistema político canadense é muito diferente do brasileiro. Difícil explicar, mas por aqui não existem, como no Brasil, a figura do partido político onipresente em todas as esferas políticas. Há partidos nacionais, como o Liberal e o Conservador, mas cada província (estado), gozando de uma autonomia política muito maior da que temos no Brasil (o verdadeiro federalismo) tem seus próprios partidos. Aqui no Québec, por exemplo, há o Partido Quebécois, o PQ, que atualmente governa a província.

No nível municipal, as mesmas regras se reproduzem, mas com um “agravante”: embora o espectro ideológico dos grandes partidos esteja também presente, o que vale é a conjuntura de cada cidade. Ou seja, a organização da política local segundo “blocos”, “movimentos”, “associações de pessoas”. Em micropartidos, podemos dizer. Conjunturais. Que podem até durar mais de uma eleição, mas que têm sua coerência não num projeto macro, nacional, mas sim num projeto imediato, local.

Assim, por exemplo, o prefeito eleito, Denis Coderre, embora seja um liberal, foi eleito por um micropartido chamado “Equipe Denis Coderre”. O micropartido da advogada bonitinha era o “Vrai changement pour Montreal” (Verdadeira mudança para Montreal), o do urbanista cheio de ideias era o “Projet Montréal” (Projeto Montreal) e o do velhinho sensação era o “Coalition Montréal” (Coalizão Montreal).

***

A mesma lógica localista faz com que a cidade seja dividida em territorialidades específicas, os 19 “arrondissements” (distritos). Cada um deles elegeu seu sub-prefeito e seus conselhos.

Coderre conseguiu eleger 9. Nas eleições de 2005 o grupo vencedor, a “Union Montréal” (União Montreal) – hoje extinta em função do mais rumoroso escândalo de corrupção deste país – havia eleito 17 dos 19 sub-prefeitos.

Tudo isso impõe ao novo prefeito uma política de parceria – tanto mais necessária por que o governo provincial, nas mãos do PQ e o governo federal, nas mãos dos conservadores, são seus oponentes.

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