Diários de Montréal 21: 11 de novembro

Desde a França que aprendemos a ter o 11 de novembro como um dia especial: sendo aniversário do Pedro, é também o dia do armistício que pôs fim à 1a Guerra Mundial. Isso dura longamente nos espíritos: foi uma guerra terrível, e sua memória pesa e levita. Nos quatro anos em que moramos em Paris acompanhamos os rituais de memória associados a esse dia: ex-combatentes (da 2a Guerra), com suas bandinhas, percorrendo os cemitérios e parando diante dos túmulos da época; pessoas comuns fazendo suas orações diante das pedras da memória, que inscrevem o nome dos combatentes mortos de cada comunidade; reportagens e documentários especiais sobre a data e muita gente emocionada nas ruas.

Aqui em Montréal, recuperamos a importância da data. Uma semana, ou mesmo mais tempo antes as pessoas já passam a fixar, nas veste, uma flor vermelha de coquelicot, símbolo da data. É muito tocante. Percebemos o quanto é importante a memória dos mortos.

O Canada participou ativamente da 1a Guerra, particularmente da batalha de Vimy, vencida pelos aliados em 1917. Nela, morreram 3.598 canadenses e outros 7.000 foram feridos.

Caminhando em direção à universidade, hoje, parei brevemente diante de um grupo de velhinhos que, diante da igreja de St Kevin, conversando, lembravam da 1a Guerra. Todos com a flor vermelha de coquelicot na lapela. Eles contavam o que lembravam a pessoas mais novas, que, com muito respeito, paravam diante deles. Estavam lá para contar.

Somente para contar. Só e mais nada. O que é muito, ou tudo… Não viveram a 1a Guerra, mas seus pais a viveram. E o que ouviram deles e das outras pessoas da época, agora, estavam lá para narrar.

Faço minha a memória deles. Parei para escutar. Um deles, voz comum da memória, conta que, em dezembro de 1916, 35 mil canadenses chegaram às planícies de Vimy e formaram uma longa trincheira de 7 km de extensão.

E depois contam que era uma segunda-feira, na páscoa de 1917, precisamente no dia 9 de abril, às 5h30 da manhã, quando receberam ordens de avançar. As forças canadenses, formando quatro divisões, então avançaram. 15 mil soldados. Avançando sobre um espaço de 6 km. A batalha durou até as 19h30. Venceram. 10 mil alemães, comandados pelo general Ludwig von Falkenhausen, recuaram. Lançaram ainda dois contra-ataques, precisamente à meia-noite e às 4 da madrugada do dia 10 de abril, mas foram repelidos.

Algumas crianças fazem perguntas e os velhinhos respondem como podem. Acho incrível esse dever de memória. Eles não estiveram lá. Nem mesmo eram nascidos quando esses fatos aconteceram. Mas ouviram de seus pais e agora estão na praça, estão nas ruas, para contá-los.

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